Raquel Ferreira Santos, psicóloga, com presença online em raquelsantos.org, é a convidada deste episódio do podcast Produtividade Consciente. A conversa parte de uma pergunta simples — como é que uma psicóloga organiza os seus dias? — e atravessa o planeamento da semana, os rituais de manhã e a relação entre autocuidado e produtividade.
Quem é Raquel Ferreira Santos
Raquel Ferreira Santos é psicóloga, com presença online em raquelsantos.org. Neste episódio, descreve como organiza a semana de consultas, os projectos paralelos, como a escrita, e as práticas de autocuidado que sustentam os seus dias.
Consultas com intervalos e um dia por semana sem consultas
Para Raquel Ferreira Santos, a semana organiza-se ao domingo, quando faz o planeamento e marca no calendário as consultas, que costumam acontecer entre as dez e as sete da tarde. Entre consultas reserva meia hora de intervalo, porque é essa pausa que lhe permite estar depois mais centrada na sessão seguinte; consultas seguidas só acontecem quando as agendas não deixam alternativa. A sexta-feira fica sem consultas, dedicada à escrita e a outros projectos, porque os dias de consulta exigem uma disponibilidade que deixa pouco espaço — mais do que tempo — para o resto. Na prática clínica, admite, é pouco tecnológica: mantém o papel, privilegia a escuta activa e guarda as notas para depois da sessão.
O ritual de manhã e o estado emocional com que se entra no dia
O início do dia, diz, não é sempre igual: admite que a disciplina às vezes falha. Quando cumpre os seus rituais, começa pelo pequeno-almoço sem interferências — não vê notícias no telemóvel de manhã — e por exercícios respiratórios que trazem do tempo em que foi instrutora de yoga. A parte que descreve como mais importante é interior: antes de começar a trabalhar, faz uma auto-análise para perceber como está e define o estado emocional em que quer estar nesse dia. Como diz, “faço uma espécie de identificação do estado emocional em que eu quero estar”. Entre consultas faz meditação e alongamentos. Para a convidada, estas paragens aumentam a produtividade, ainda que a sensação inicial seja a de que parar é contraproducente.
Ferramentas digitais, listas escritas e a respiração para o foco
Para gerir o tempo nas redes sociais, usa a função de bem-estar digital do telemóvel, que permite definir um limite diário por aplicação e bloquear o acesso depois de esgotado, ficando disponível apenas no dia seguinte. A partir das dez da noite desactiva todas as notificações e o ecrã passa a preto e branco. Medita com música e recomenda a aplicação gratuita Insight Timer, que permite parametrizar o tempo e criar meditações guiadas. As tarefas vivem no calendário — incluindo as respirações do início do dia — e numa lista onde regista as ideias futuras; não é pessoa de andar com as tarefas da semana na cabeça, porque isso rouba espaço ao trabalho. Quando precisa de foco, faz cerca de dez vezes a respiração de sopro lento, ou kapalabhati — inspiração lenta e expiração rápida pelo nariz —, que descreve como forma de oxigenar o cérebro.
Os erros da carreira, a síndrome de impostor e a exposição
Questionada sobre o maior erro da sua carreira, aponta o isolamento em que trabalhou numa primeira fase: a psicologia, observa, é uma profissão que tende a isolar, e hoje considera essencial a intervisão — discutir casos com colegas e falar das angústias. O segundo erro que identifica é ter querido provar valor aos clientes, que liga à insegurança de quem começa. Reconhece ter passado por momentos de síndrome de impostor, sobretudo por comparação com o que vê nas redes sociais, e diz que ganhou tranquilidade com a experiência e com os resultados do trabalho. A exposição continua a ser uma dificuldade: refere ter já recusado convites para televisão por recear não acrescentar nada.
O psicólogo também vai ao psicólogo
Para a convidada, todos deveriam passar pelo menos uma vez na vida por psicoterapia, incluindo os psicólogos. Descreve a consulta como um espaço libertador, onde é possível dizer o que se sente sem julgar nem magoar quem se gosta. E há uma razão profissional: se as questões internas de quem atende não estiverem alinhadas, podem interferir na prática clínica. Dá um exemplo extremo — um psicólogo que vive um desgosto amoroso e recebe a seguir um paciente na mesma situação corre o risco de projectar os seus próprios sentimentos na sessão. Por isso, diz, é preciso estar sempre atenta à projecção.
Mostrar um lado humano sem perder a privacidade
Raquel Ferreira Santos defende que é possível mostrar mais do que o nome e a profissão sem perder a intimidade. Distingue vida pessoal de vida privada: pode contar que pinta — quase meditação activa, diz — e partilhar essa faceta numa página separada, para não misturar com a identidade de psicóloga. Foi com esse equilíbrio que decidiu publicar um livro sobre a história do seu irmão, pesando a possibilidade de ajudar pessoas em situações semelhantes sem contar tudo nem falsear o que aconteceu. Acredita que este lado mais humano ajuda a combater o estigma de que só procura ajuda quem está muito mal. Explica ainda que não usa música ambiente nas sessões: uma canção pode ter significados emocionais diferentes de pessoa para pessoa.
O que fica desta conversa
- Planear a semana ao domingo e reservar meia hora entre consultas melhora a qualidade do trabalho.
- Um dia por semana sem consultas, dedicado a projectos, protege o espaço emocional da semana.
- O autocuidado — meditação, alongamentos, respiração — parece uma pausa e aumenta a produtividade.
- Limites de tempo nas redes sociais e notificações desligadas às dez da noite reduzem o ruído do dia.
- Escrever tudo: o que não está no calendário nem na lista de ideias ocupa espaço mental.
Perguntas frequentes
Como organiza Raquel Ferreira Santos a semana de consultas?
Faz o planeamento ao domingo e marca no calendário as consultas, entre as dez da manhã e as sete da tarde. Reserva meia hora entre sessões e deixa a sexta-feira livre para a escrita.
Porque é que os psicólogos devem ir ao psicólogo?
Para Raquel Ferreira Santos, todos deveriam fazer psicoterapia pelo menos uma vez na vida. Se as questões internas de quem atende não estiverem alinhadas, podem interferir na prática clínica, através de projecções.
Que exercício de respiração ajuda na concentração?
A convidada faz cerca de dez vezes a respiração de sopro lento, ou kapalabhati: inspiração lenta e expiração rápida pelo nariz. Descreve-a como uma forma de oxigenar o cérebro, útil quando há demasiados pensamentos.
Os psicólogos devem expor a sua vida pessoal nas redes sociais?
Depende, segundo a convidada, mas ela defende que mostrar um lado humano ajuda a combater o estigma. Distingue vida pessoal de vida privada e partilha o que considera necessário, como o livro sobre o irmão.
Fontes
- Podcast “EP11 – Produtividade na Psicologia com Raquel Ferreira Santos”, FULL FILL, Fevereiro de 2021 — no início deste artigo.
- Imagem: cartão do episódio, FULL FILL.
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