Rui Catalão é Director Criativo no BA Studio e é um dos autores da marca FULL FILL. Nesta conversa, fala do percurso que começou aos catorze anos, das rotinas que antecedem o dia de trabalho, das ferramentas com que gere equipas e projectos e da relação entre design, cultura geral e produtividade.

Quem é Rui Catalão

Rui Catalão é Director Criativo no BA Studio e trabalha em design há cerca de vinte e cinco anos, com um atelier que já soma dezoito anos de actividade. Além do trabalho do estúdio, dá aulas a alunos de design e é instrutor de chi kung, actividade que passou a integrar a sua rotina diária.

Um dia que começa antes de chegar ao atelier

Para Rui Catalão, o dia de trabalho não começa quando chega ao atelier: começa antes, em casa, com uma revisão do que aí vem e com a prática de chi kung — entre trinta minutos e uma hora, conforme o tempo disponível. Segundo o convidado, essa ligação à natureza e a prática de exercícios ajudam-no a arrancar o dia mais sincronizado e preparado para os desafios que sabe que vai encontrar. Descobriu o chi kung num retiro e manteve o hábito até se tornar instrutor.

As pausas, diz, funcionam em dois tempos: uma base pela manhã e pequenas paragens ao longo do dia, como levantar e beber um copo de água. A hora de almoço é outra paragem que procura privilegiar, ao contrário do hábito que encontrou em equipas em Inglaterra e nos Países Baixos, onde se comia uma sandes sobre a mesa.

Ferramentas simples e gestão de equipas

O ponto de partida do trabalho de Rui Catalão foi o mais simples possível: papel e caneta, com folhas em que organizava objectos e tempos de resposta. Com a complexidade crescente dos projectos, passou a apoiar-se também em blocos de notas e em ferramentas digitais, mas mantém a lógica de ter sempre uma base que lhe permita saber o que vem a seguir.

No trabalho com as equipas, essas ferramentas servem sobretudo para acompanhar as várias fases de cada projecto e para perceber o que cada pessoa está a fazer, evitando as perguntas constantes sobre qual é o próximo passo. No seu posto de trabalho tem um monitor de grandes dimensões ligado ao portátil, que usa em conjunto com um teclado à parte; quanto ao resto, diz que prefere guardar as coisas em vez de as acumular sobre a mesa.

No episódio é ainda referido um estudo da Microsoft, citado pelo anfitrião, segundo o qual passar de um para dois monitores pode aumentar a produtividade em cerca de trinta por cento.

O mito da organização

A conversa regressa a uma ideia recorrente: a de que é preciso ser organizado para ser produtivo. Para Rui Catalão, a organização necessária varia de pessoa para pessoa — há quem precise de uma estrutura exterior rígida e quem trabalhe com papéis espalhados à vista — e o objectivo não é ter uma secretária impecável, mas conseguir produzir.

Sobre os objectos que o acompanham, fala de fotografias da família e da equipa, guardadas como memória de percursos partilhados, e de um póster de Berlim que tem na parede e que costuma chamar a atenção de quem visita o atelier.

Erros, mentores e o conselho que fica

O maior erro profissional que identifica aconteceu aos vinte e dois anos, quando trabalhava numa agência com um director criativo inglês com quem não se deu bem. Hoje, aos quarenta e três, diz que voltaria atrás para pedir calma àquele jovem: ficar mais um ou dois anos e aprender, em vez de sair. O que lhe falta, reconhece, foi ter tido um mentor.

Segundo Rui Catalão, o melhor conselho que recebeu é o de tentar sempre: é mais difícil conviver com o arrependimento de não ter tentado do que com o resultado de uma tentativa que correu mal. Fala também do que vai lendo, como “O Fio da Navalha”, de Somerset Maugham, que terminou pouco antes desta conversa.

Design, cultura e produtividade

Para Rui Catalão, design e produtividade são quase a mesma coisa. Recorrendo ao princípio que atribui à tradição da escola alemã de design — “a forma segue a função” —, defende que o bom design é clarificante e purificador: resolve ruído, dá sentido e torna mais fácil percorrer a informação. Num mundo cada vez mais visual, sublinha, uma marca não se constrói apenas com um logótipo: precisa de uma estratégia de comunicação, e a história que conta tem de ser verdadeira para fazer diferença.

A quem quer seguir design, o conselho é não saltar a formação e construir cultura geral. Para o convidado, o design é conceptual: é preciso reconhecer o que foi feito antes, olhar para a história das ideias, visitar museus e não se limitar a copiar o que está a passar. Sem esse trabalho, diz, o resultado fica igual ao de qualquer outro.

O que fica desta conversa

  • Começar o dia antes de chegar ao trabalho, com uma revisão e uma prática que alinhe corpo e atenção, muda a forma como o dia corre.
  • As ferramentas mais simples — papel, caneta e blocos — continuam a sustentar projectos complexos.
  • Ferramentas de equipa servem para evitar perguntas repetidas sobre o próximo passo.
  • A organização necessária é pessoal: o objectivo é produzir, não ter a mesa impecável.
  • Procurar um mentor cedo evita anos de aprendizagem perdidos.
  • No design, a cultura geral e o que foi feito antes são o que distingue um trabalho conceptual de uma cópia.

Perguntas frequentes

Como começa o dia de trabalho de Rui Catalão?

Antes de sair de casa, faz uma revisão do dia e pratica chi kung durante trinta minutos a uma hora, conforme o tempo disponível. Para Rui Catalão, essa rotina traz energia e deixa-o mais preparado para os desafios que sabe que vai encontrar no atelier.

O que é preciso para seguir design?

Segundo Rui Catalão, é preciso formação e cultura geral. O design é conceptual, pelo que é indispensável reconhecer o que foi feito antes, olhar para a história das ideias e visitar museus, em vez de copiar o que está a passar.

Ser organizado é o mesmo que ser produtivo?

Não. Na conversa defende-se que a organização necessária varia de pessoa para pessoa, havendo quem precise de uma estrutura rígida e quem trabalhe bem com papéis à vista. O objectivo não é ter um espaço impecável, mas conseguir produzir e concluir o trabalho.

Como é que o design influencia a produtividade?

Rui Catalão defende que o bom design clarifica e retira ruído. Recorrendo ao princípio de que a forma segue a função, explica que o design ajuda a dar sentido e a percorrer a informação, tornando mais fácil executar e menos provável perder tempo com o que não interessa.

Fontes

  • Podcast “EP07 – Design e Produtividade com Rui Catalão”, FULL FILL, Janeiro de 2021 — no início deste artigo.
  • Imagem: cartão do episódio, FULL FILL.

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