Pedro Chagas Freitas é autor e escreve o que lhe apetece escrever. Neste episódio do podcast Produtividade Consciente, a conversa parte de uma pergunta simples: como se passa da vontade de escrever para um livro terminado? A resposta do convidado não passa pela inspiração, mas por páginas contadas, mapas de história e uma disciplina que mantém há décadas.
Quem é Pedro Chagas Freitas
Pedro Chagas Freitas é autor e apresenta-se sobretudo como alguém que escreve: faz ficção, crónicas e poesia, e metade do trabalho está, como ele diz, do outro lado, em conseguir que as pessoas leiam o que escreveu. A sua actividade passa também por projectos de escrita criativa. A sua página é pedrochagasfreitas.com.
Escrever é o primeiro passo, não a inspiração
Para Pedro Chagas Freitas, o passo decisivo é aquele que quase ninguém vê: o acto de escrever. Diz que crescemos a ver entrevistas, documentários e filmes sobre escritores e ficamos com a ideia de que a obra nasce de um momento de iluminação, depois do qual tudo flui. A ele, garante, nunca lhe aconteceu isso, e a caneta nunca lhe escreveu sozinha.
A sua descrição do processo é directa: «eu escrevo porque tenho necessidade». Não se considera feliz por escrever nem infeliz por isso, mas nos dias em que não escreve sente que lhe falta algo.
A conta das páginas por dia
A disciplina do convidado mede-se em páginas. Durante anos definiu um número de páginas para cada dia e cumpria-o à hora que fosse. A conta que faz é simples: quem escreve uma página por dia tem 365 páginas ao ano, o que já dá um livro. Segundo as suas próprias contas, escreveu mais de uma centena de obras, das quais 33 estão publicadas.
Um dos livros obrigou-o a dez páginas por dia, um ritmo que descreve como brutal: o documento chegou às 1500 páginas e foi depois limpo até cerca de 300 a 400. Escrevia todos os dias, incluindo sábados, domingos e feriados, e recuperava depois as páginas em falta. Para um romance, reserva no mínimo uma hora e meia a duas horas.
O mapa: o livro escrito antes de estar escrito
Antes de escrever, Pedro Chagas Freitas desenha o mapa da história. É um plano em que já sabe o que vai acontecer, capítulo a capítulo, e que vai alterando ao longo da escrita. Quando coloca o último capítulo no mapa, diz que o livro está escrito, mesmo que ainda não tenha uma linha redigida.
Para ele, o mapa tem uma função prática: protege o trabalho de quem precisa de parar. Com o mapa, é possível voltar meses depois, olhar para o plano e reposicionar a história; sem ele, o autor arrisca-se a já não saber o que queria contar. Escreve uma história de cada vez, nunca duas em simultâneo, embora possa escrever em paralelo crónicas ou poemas ligados ao romance que tem em mãos.
Papel, computador, bloqueio e preguiça
A ferramenta de trabalho é o processador de texto, porque o texto em si exige pouco mais do que isso, mas o suporte muda o resultado. Textos curtos, como crónicas, nascem no papel, onde trabalha cada frase quase como se limpasse um diamante; romances passam para o computador, porque precisam de acompanhar a velocidade do pensamento e porque escrever 800 páginas à mão seria escrever o livro duas vezes.
Sobre o bloqueio do escritor, a posição é clara: na sua experiência é um mito, e o nome mais adequado para os dias difíceis é preguiça. Conta que os textos com que mais se identificou nasceram de dias em que teve de resistir à tentação de não escrever. Rejeita também o cenário romântico: para ele, o local é irrelevante.
Amor, erros e a língua portuguesa
Nos livros que referiu na conversa aparece o mesmo fio. «É urgente amar» parte da ideia de que nada é mais urgente do que amar, e de que o amor não se limita ao casal, podendo dirigir-se a um objectivo ou a um ideal. «Prometo falhar» nasce da experiência de errar no percurso profissional e da ideia de aprender a «falhar melhor». Em «A maneira mais bonita de errar», o erro mais bonito foi arriscar apaixonar-se.
O convidado diz ainda que escreve apenas em português, mesmo com livros publicados em várias línguas, porque pensa em português e considera a língua uma ferramenta poderosa. Confessa também que escreve muitas vezes por inveja: quando lê algo muito bom, sente vontade de fazer o mesmo.
Fazer os outros escrever
Boa parte do trabalho que faz além dos livros serve para levar outras pessoas a escrever. Criou jogos de escrita criativa, para crianças e adultos, fez stand-up comedy e organiza um campeonato de escrita criativa, em que o desafio é escrever um texto curto por semana, avaliado por três elementos do júri. O que fica, diz, não é a classificação, mas a obrigação de criar ao longo das semanas.
Conta ainda que escrevia pelo menos 750 palavras por dia e que chegou a 38 dias seguidos sem falhar. A mensagem que repete a quem quer começar é simples: defina um número de páginas ou de palavras por dia e sente-se a escrever.
O que fica desta conversa
- Não espere pela inspiração: defina um número de páginas ou de palavras para cada dia e cumpra-o.
- Desenhe o mapa da história antes de escrever, para poder retomá-la depois de uma pausa.
- Escolha o suporte em função do texto: papel para textos curtos e trabalhados, computador para projectos longos.
- Trate os bloqueios de escrita como falta de força de vontade para se sentar.
Perguntas frequentes
Como começar a escrever sem inspiração?
A resposta do convidado é prática: defina um número de páginas ou de palavras por dia e sente-se a escrever. Ele escreve por necessidade, não por prazer, e nos dias em que não escreve sente que lhe falta algo.
Como manter uma rotina de escrita todos os dias?
Pedro Chagas Freitas escolhe um número de páginas diárias e cumpre-o independentemente do dia da semana. Escrevia inclusive sábados, domingos e feriados, e recuperava depois as páginas em falta.
O que é o mapa de uma história e para que serve?
É o plano que o autor desenha antes de escrever, com o que acontece em cada capítulo. Serve para não perder o fio à história: com o mapa, basta voltar meses depois, olhar para o plano e reposicionar o trabalho.
Em papel ou no computador: onde é melhor escrever?
Depende do texto. O convidado escreve crónicas e textos curtos à mão, onde cada frase é trabalhada com mais cuidado, e romances no computador, porque o texto é muito mais extenso.
Fontes
- Podcast “E17 – Produtividade na escrita com Pedro Chagas Freitas”, FULL FILL, Junho de 2021 — no início deste artigo.
- Imagem: cartão do episódio, FULL FILL.
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