Mariana Abecasis é nutricionista e trabalha sobretudo em nutrição clínica, com uma presença crescente na área digital. Neste episódio do podcast Produtividade Consciente, a conversa liga a alimentação ao trabalho: que efeito tem um almoço pesado numa tarde de reuniões, porque se recorre a comida de pior qualidade quando o dia corre mal e o que se pode fazer para manter energia e foco.

Quem é Mariana Abecasis

Mariana Abecasis é nutricionista e descreve a profissão como vocação, com trabalho centrado na nutrição clínica, a sua área de eleição. Nos últimos anos passou também a comunicar sobre nutrição no mundo digital, para ajudar a desmistificar determinadas ideias feitas. A sua página é marianaabecasisnutricionista.pt.

A alimentação dos portugueses depois de um período atípico

Para Mariana Abecasis, o último ano e meio alterou hábitos de forma profunda. As pessoas passaram a gerir a alimentação dentro de casa de outra maneira e reduziram a actividade física intencional e o gasto calórico das tarefas habituais. A maior consciência sobre o tema conviveu com níveis elevados de stress e ansiedade, o que empurrou muitas pessoas para uma relação mais emocional com a comida e para o aumento de peso.

Entre os principais desvios aponta os doces e os produtos açucarados, a fome emocional e a explosão das encomendas de comida. O facilitismo de ter qualquer refeição à distância de um clique veio piorar os hábitos: as compras online são compras por impulso e, com fome, a escolha recai na opção mais atractiva e menos racional.

Comida pesada, energia e produtividade

A mensagem central do episódio é que a alimentação não serve apenas para atingir um peso. Para a convidada, refeições volumosas e de digestão difícil explicam parte do que se sente a seguir ao almoço: em vez de mais energia, o corpo canaliza recursos para a digestão e o resultado é sonolência e uma quebra grande na capacidade de trabalho. Uma refeição mais leve, como uma sopa ou uma salada, é digerida mais depressa e permite manter o ritmo durante a tarde.

A partir daí instala-se um ciclo: quanto pior se come, mais o corpo pede comida de pior qualidade, feita de produtos refinados e açúcares simples. A convidada dá o exemplo de quem não almoçou e come dois croquetes e uma empadinha: são calorias moderadas, mas poucos nutrientes, e ao fim do dia a mensagem é que não houve almoço e que, por isso, se merece comer muito mais. As calorias de um alimento, insiste, não reflectem a sua qualidade.

O atleta corporativo e a nutrição preventiva

O conceito de atleta corporativo, trazido à conversa, descreve quem trabalha num escritório como alguém que também compete e se desgasta, mesmo sem actividade física. Mariana Abecasis concorda com a metáfora e lembra que um jogador de futebol come de forma diferente em dia de treino, em dia de jogo e no dia seguinte, para recuperar, enquanto quem trabalha em escritório raramente pensa assim.

Segundo a sua experiência em consulta, a nutrição é procurada sobretudo por motivos estéticos ou de saúde, e não de forma preventiva. A maioria das pessoas marca consulta quando já está em crise, com fadiga ou a sensação de que o corpo está em esforço, em vez de olhar para a alimentação como forma de evitar esses sintomas.

Adaptar o dia em vez de seguir um plano rígido

Para a convidada, o papel da nutricionista é equilibrar e ajudar a adaptar o dia a dia, e não entregar um plano alimentar com palas nos olhos. Isso significa olhar para o tipo de trabalho: quem tem reuniões seguidas precisa de opções à mão para não passar horas sem comer, quem passa o dia fora de casa precisa de soluções que caibam na mala, e quem almoça fora precisa de saber escolher.

O mesmo raciocínio aplica-se ao fim do dia, quando o cansaço reduz a paciência para cozinhar e aumenta a vontade de recorrer à comida fácil. E se é o facilitismo que resolve o dia, vale a pena usá-lo com critério: encomendar comida pode ser um hábito saudável, desde que a escolha seja feita com atenção e não com fome e impulso.

Jejum intermitente: nem contra nem a favor

Sobre o jejum intermitente, Mariana Abecasis diz-se «nem contra nem a favor». A sua posição é avaliar se a pessoa é saudável e se, dentro da janela em que come, faz escolhas equilibradas. O regime mais falado, com dezasseis horas sem comer, cai por terra se as oito horas de alimentação forem de má qualidade e se a pessoa se focar apenas no número de horas que aguentou.

Há também sinais que obrigam a repensar: dores de cabeça, tonturas ou irritabilidade indicam que aquele tipo de jejum não serve. A convidada alerta ainda para quem não faz jejum formalmente, mas passa muitas horas sem comer e depois compensa com um almoço e um jantar muito volumosos, repetindo a quebra de produtividade da tarde. Em trabalho por turnos, sobretudo nocturno, este padrão raramente é benéfico.

Estudos contraditórios, moderação e comida verdadeira

A convidada reconhece que há muita contradição entre estudos e entre nutricionistas. O consensual, diz, é que os legumes fazem bem e que a comida processada, rica em açúcares e gorduras de má qualidade, faz mal; tudo o resto deve ser adaptado a cada pessoa e ao seu dia a dia. Nesta matéria assume-se como pouco radical e lembra que o azeite já foi considerado uma gordura péssima e hoje é apontado como a melhor.

Resta a sugestão que deixa a quem ainda não pensa no tema: experimentar alguns dias de alimentação equilibrada, sem dietas restritivas, e notar o efeito no humor, no sono, na digestão e na produtividade. Da sua parte, resume o essencial a «comer alimentos que a nossa avó conseguia reconhecer como alimentos», comprados e confeccionados em casa, porque ser saudável não tem de ser complicado.

O que fica desta conversa

  • Repare no efeito do almoço na tarde: refeições pesadas custam energia e produtividade.
  • Não confunda calorias com qualidade: muitos nutrientes valem mais do que muitas calorias vazias.
  • Planeie a alimentação em função do dia de trabalho, com opções à mão nos dias cheios.
  • Trate a nutrição como prevenção, e não apenas como resposta a um problema instalado.
  • Faça alguns dias de alimentação equilibrada e avalie o impacto no humor, no sono e no trabalho.

Perguntas frequentes

Como é que a nutrição afecta a produtividade no trabalho?

Refeições volumosas e de digestão difícil levam o corpo a gastar energia na digestão, o que provoca sonolência e quebras de rendimento. Uma alimentação mais leve e equilibrada ajuda a manter energia e concentração ao longo do dia.

Que erros alimentares são mais comuns em quem trabalha o dia inteiro?

Doce e produtos açucarados, fome emocional e encomendas de comida feitas por impulso. Mariana Abecasis nota ainda que muitas pessoas passam horas sem comer e depois compensam com refeições muito volumosas, sobretudo ao almoço e ao jantar.

O jejum intermitente é recomendado para quem quer ser mais produtivo?

A convidada diz-se nem contra nem a favor. O jejum só faz sentido se a pessoa for saudável e se as refeições da janela alimentar forem equilibradas. Dores de cabeça, tonturas e irritabilidade indicam que aquele tipo de jejum não serve.

Como começar a comer melhor sem fazer uma dieta restritiva?

A sugestão é experimentar alguns dias de alimentação equilibrada, sem dietas restritivas, e observar o efeito no humor, no sono, na digestão e na produtividade. Comer alimentos que a avó reconheceria e confeccionar as refeições em casa simplifica o processo.

Fontes

  • Podcast “EP18 – Nutrição e produtividade por Mariana Abecasis”, FULL FILL, Julho de 2021 — no início deste artigo.
  • Imagem: cartão do episódio, FULL FILL.

FULL FILL

A FULL FILL desenvolve soluções que contribuem para um melhor funcionamento e bem-estar da humanidade. Fale connosco.