Elisabete Tavares é jornalista no Global Media Group e é a convidada do 19.º episódio do podcast Produtividade Consciente. A conversa parte do percurso dela, com mais de vinte anos de profissão entre agências noticiosas e imprensa diária, para chegar ao modo como se trabalha hoje no jornalismo: o ritmo alucinado, as notificações e o custo da luta pela notícia ao segundo.
Quem é Elisabete Tavares
Elisabete Tavares é jornalista no Global Media Group, onde trabalha desde há quase quatro anos, depois de uma carreira passada sobretudo em agências noticiosas e na imprensa nacional, com especialização em jornalismo económico e mercados financeiros. Traz para esta conversa o retrato de uma profissão sob pressão contínua e as rotinas que encontrou para a suportar.
O ritmo alucinado do jornalismo actual
Para Elisabete Tavares, o dia a dia do jornalista mudou radicalmente face ao que conheceu no início da carreira. Antes, diz, havia um jornalismo de agência, marcado pelo stress do tudo ao minuto, e um jornalismo de jornal diário, com uma edição a sair no dia seguinte. Essa separação desapareceu.
Segundo a convidada, hoje quase todos trabalham como se estivessem numa agência: mesmo quem está num diário escreve imediatamente para o site, o que aumentou o ritmo de toda a profissão. A isso juntam-se a concorrência das redes sociais e a corrida pela notificação que chega ao telefone do leitor.
Fazer as pazes com a realidade
A ideia central que Elisabete Tavares leva desta conversa é a de que é preciso estar em paz com aquilo que se consegue fazer. Para ela, isso exige um realismo que nem sempre estamos dispostos a aceitar: não há dias de quarenta e oito horas nem é possível fazer tudo ao mesmo tempo.
Para Elisabete Tavares, o passo decisivo foi «fiz as pazes com essa noção» — a de que não era a super-mulher, mas uma pessoa com limitações. Só quando reconheceu o que era capaz de fazer construiu um plano coerente, em vez de encaixar sempre mais uma tarefa até ao desgaste.
O corpo e a mente como ferramentas de trabalho
Nos anos mais intensos de agência, o que ajudou Elisabete Tavares foi o desporto: exercício de manhã cedo, antes de a família acordar, e ginásio à hora de almoço, para libertar tensão acumulada.
Segundo a convidada, a prática evoluiu com o tempo. Hoje o grande esforço de ginásio já não faz tanto sentido na sua rotina: o que se tornou indispensável foram o yoga, a meditação e as caminhadas na rua, os instrumentos que encontrou para gerir os dias menos positivos da profissão.
Desligar para recuperar a atenção
Elisabete Tavares não apresenta uma lista de dicas tecnológicas, porque, diz, isso não seria verdade. O que faz é o contrário do que a profissão parece exigir: deixa o telemóvel em casa, desliga o computador assim que termina o trabalho e não tem aplicações de mensagens nem notificações activas no telefone.
Para a convidada, o objectivo é dedicar toda a atenção ao tempo livre e ao que considera importante, em vez de ficar à mercê de impulsos alheios. Na secretária, mantém poucos objectos: uma caneta, um bloco de papel, a agenda e um gravador antigo.
O vício de estar sempre a perder notícias
Ao sair do ambiente de agência para um semanário, Elisabete Tavares sentia que estava sempre a perder notícias. Foi essa sensação constante que a levou a perguntar-se «se o jornalismo para mim era uma profissão ou era um vício».
Para a convidada, a lógica de ganhar a notícia ao segundo tem implicações na forma de pensar e na relação com a profissão, e obriga a um ajuste consciente para se continuar a fazer jornalismo de forma mais saudável. O acompanhamento de reuniões, comissões e telefonemas faz com que procure silêncio quando escreve, reservando a música para o tempo em que consegue estar disponível para a ouvir.
Erros, fontes e a obrigação de corrigir
Elisabete Tavares é directa quanto à possibilidade de erro: errou várias vezes e continua exposta a esse risco. Conta um episódio em que enviou uma série de alertas sobre o mercado ibérico de electricidade sem confirmar com o colega especialista, que estava ausente, e teve de corrigir logo de seguida.
Segundo a convidada, o que protege o trabalho são os mecanismos aprendidos nas agências: citar a fonte, verificar com quem conhece a área e corrigir imediatamente quando o erro é detectado. Para ela, a correcção é uma prática aceitável e normal.
Cidadania 21 e a vida para além da redacção
Além da redacção, Elisabete Tavares é membro fundadora de uma plataforma cívica criada em 2020, ligada à Cidadania 21, que procura abrir espaços de debate sobre ciência e saúde pública. A sua actividade principal continua a ser outra: mãe de três crianças, papel que diz ser a sua principal missão.
Na mesa de cabeceira estão sobretudo livros infantis que lê ao fim da noite, e sobre o melhor conselho que recebeu é clara: descansar sempre que se tem um bocadinho, sem culpa e sem sentir que não se está a produzir.
O que fica desta conversa
- Aceitar a realidade e as limitações como ponto de partida de qualquer plano de produtividade.
- Reconhecer que o ritmo de agência se tornou a norma, mesmo nos jornais diários.
- Usar o corpo — exercício, yoga, caminhadas e meditação — para gerir a pressão.
- Desligar o computador no fim do dia e tirar as notificações do telefone.
- Citar sempre a fonte e corrigir imediatamente quando um erro é detectado.
- Reservar tempo para descansar sem agenda e sem culpa.
Perguntas frequentes
Porque é que o dia a dia do jornalismo se tornou tão exigente?
Para Elisabete Tavares, desapareceu a separação entre o jornalismo de agência, tudo ao minuto, e o trabalho para a edição do dia seguinte. Hoje todos escrevem imediatamente para os sites, com a concorrência das redes sociais a agravar o ritmo.
Como é que a convidada gere o stress da profissão?
Segundo a convidada, o que a ajudou foi o desporto, de manhã cedo e à hora de almoço, e mais tarde o yoga, a meditação e as caminhadas. São os instrumentos que encontrou para lidar com os dias menos positivos.
Que papel dá Elisabete Tavares à tecnologia no seu trabalho?
Um papel pequeno e deliberado. Deixa o telemóvel em casa, desliga o computador quando termina o trabalho e não tem notificações activas, porque quer decidir a que dedica a atenção no seu tempo livre.
O que fazer quando a sensação é a de estar sempre a perder notícias?
Para Elisabete Tavares, é preciso perceber que essa sensação está ligada à lógica de ganhar a notícia ao segundo, comum às agências. Reconhecendo o mecanismo, diz, é possível continuar a fazer jornalismo com foco, mas de forma mais equilibrada.
Fontes
- Podcast “E19 – Produtividade no Jornalismo com Elisabete Tavares”, FULL FILL, Julho de 2021 — no início deste artigo.
- Imagem: cartão do episódio, FULL FILL.
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