Rafaela Garcez é organizadora profissional e é a convidada do 20.º episódio do podcast Produtividade Consciente. A conversa começa naquilo que uma consultora de organização faz, na prática, e termina na relação entre a ordem da casa, o desapego e a capacidade de trabalhar com foco.

Quem é Rafaela Garcez

Rafaela Garcez é organizadora profissional, com o trabalho apresentado em rafaelagarcez.pt. Nesta conversa explicou como chegou à profissão, o que distingue uma sessão de organização de uma limpeza ou de uma arrumação apressada, e trouxe exemplos concretos do que acontece em casa dos clientes.

O que faz, afinal, uma organizadora profissional

Para Rafaela Garcez, o trabalho não é chegar a casa de alguém e guardar tudo em caixas bonitas. Começa por um questionamento peça a peça: porque é que se guarda esta caneta, este papel, esta peça de roupa. É esse exercício que leva muitas pessoas a questionar outras áreas da vida — e é aí, diz, que acontece a verdadeira transformação.

Na sua experiência, basta chegar à vigésima ou trigésima pergunta para a pessoa perceber que afinal precisa de metade do que tem. E o papel do profissional é semelhante ao de um treinador pessoal: todos sabem que deviam treinar, mas é o acompanhamento que impede que se desista a meio, quando a roupa está toda em cima da cama e a vontade acaba.

Mais objectos do que a casa suporta

O problema de fundo, explica, raramente é a falta de arrumação: é haver mais objectos do que aqueles que a casa suporta. Sem espaço para tudo, deixa de haver um lugar para cada coisa e começa-se a enfiar tudo em qualquer sítio.

Segue-se a parte mais difícil, o desapego emocional. Há presentes que não têm utilidade mas têm história, e há pessoas que ainda não estão preparadas para essa decisão. Quando chega a esse ponto, Rafaela Garcez prefere dizer que não conseguiu atingir o objectivo do que forçar uma escolha que o cliente ainda não consegue assumir.

Objectos que pertencem a uma versão que já não existe

Antes de organizar, conduz uma conversa sobre o presente: quem é a pessoa hoje e quem quer ser. Muitos objectos pertencem a uma versão antiga de nós próprios, ou a uma versão futura que nunca chegou — o curso de inglês deixado a meio, a roupa de antes de uma gravidez, as metas que ficaram por cumprir.

Para Rafaela Garcez, guardar esses objectos mantém a pessoa presa ao passado e transforma cada gaveta numa pequena frustração diária. A sua proposta é concreta: definir um plano realista com prazo e, se o prazo passar sem que o plano se cumpra, libertar o objecto. Isso inclui aceitar que o corpo muda e que o tamanho da roupa não define ninguém.

Essencialismo em vez de minimalismo

A palavra minimalismo, diz, assusta as pessoas, porque parece obrigar a viver com uma caneca e um colchão no chão. Por isso prefere falar de essencialismo: o essencial é diferente para cada pessoa e não se mede pelo número de objectos.

Nem tudo o que fica precisa de utilidade prática. Para ela, a função de um objecto pode ser simplesmente ser belo ou fazer bem. E lembra o ditado do ferreiro: em sua casa há pouquíssimas coisas, mas não está sempre arrumada — o que a deixa satisfeita é conseguir colocá-la em ordem em cinco minutos. A sua casa é uma casa para se viver, não uma casa de revista, e as fotografias que vemos são preparadas para a fotografia.

Da bancada da cozinha para a secretária

Rafaela Garcez usa a cozinha como exemplo do impacto da organização na vida diária. Muitos clientes dizem que já não cozinham porque não têm espaço, porque não sabem o que têm ou porque está loiça por lavar. O truque que recomenda é simples: manter a bancada vazia, porque a bancada é um espaço de trabalho.

A mesma lógica aplica-se à secretária. Trabalhar num espaço livre é mais fácil de pensar e de criar, e a diferença nota-se no dia a dia. Quem se habituou ao caos tende a acreditar que funciona melhor assim, mas talvez nunca tenha experimentado o contrário. A excepção, admite, são os ateliês de artistas, onde o caos pode obrigar a mente a procurar ordem e a resolver problemas.

Decidir sem música

Uma das opções mais curiosas que partilhou: não deixa os clientes ouvir música durante as sessões, e ela própria também não ouve. A música traz à memória emoções e experiências passadas e retira o foco da decisão que está a ser tomada. Fica para o fim do dia, para arrumar, para limpar ou para fazer exercício.

No final, Rafaela Garcez deixou o conselho que mais a marcou, vindo do pai, quando estava a começar e dizia que lhe faltava confiança: faz, porque é a fazer que a confiança aparece. É o mesmo conselho que passa hoje às pessoas que forma como organizadoras, depois de ter criado formação para quem quer seguir esta profissão.

O que fica desta conversa

  • Antes de arrumar, perguntar para que serve cada objecto e porque se guarda.
  • Perceber se há mais objectos do que a casa suporta, em vez de comprar mais arrumação.
  • Definir quem é hoje e quem quer ser, e decidir a partir daí.
  • Dar prazo aos planos antigos e libertar o que já não serve.
  • Manter a bancada da cozinha e a secretária livres: são espaços de trabalho.
  • Escolher o essencial de cada pessoa, sem copiar o minimalismo dos outros.

Perguntas frequentes

Qual é a diferença entre uma organizadora profissional e uma empregada doméstica?

Para Rafaela Garcez, a diferença está no questionamento e no método. Uma consultora de organização questiona o motivo de cada objecto, olha para a rotina da família e decide onde colocar cada coisa; uma limpeza mantém o espaço a funcionar, mas não questiona o que lá está.

Porque é que é tão difícil desapegar de objectos?

Porque muitos objectos guardam memórias e pertencem a uma versão da pessoa que já não existe ou a um futuro que não aconteceu. Segundo Rafaela Garcez, o desapego é uma decisão emocional: sem um plano claro sobre quem queremos ser, a escolha torna-se demasiado difícil.

O que é o essencialismo e em que difere do minimalismo?

O essencialismo, na abordagem de Rafaela Garcez, procura o que é essencial para cada pessoa, sem reduzir tudo ao mínimo. O minimalismo assusta, diz, porque parece obrigar a viver com quase nada, enquanto o essencial pode incluir uma colecção ou um objecto que simplesmente faz bem.

A organização da casa influencia mesmo a produtividade no trabalho?

Para Rafaela Garcez, sim. Um espaço livre facilita pensar e criar, e a mesma lógica aplica-se à secretária de trabalho. Quando o ambiente está sobrecarregado, a mente gasta energia a lidar com o caos em vez de a dedicar à tarefa que tem de fazer.

Fontes

  • Podcast “E20 – Organização e Produtividade com Rafaela Garcez”, FULL FILL, Julho de 2021 — no início deste artigo.
  • Imagem: cartão do episódio, FULL FILL.

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