Vítor Agostinho é Inspector na Polícia Judiciária e, nesta conversa, abre a porta de uma profissão que o cinema transformou em espectáculo. Fala das responsabilidades na área do cibercrime, das ferramentas que usa para coordenar uma equipa que viaja pelo país e do desgaste de uma carreira sem hora certa para acabar.

Quem é Vítor Agostinho

Vítor Agostinho é Inspector na Polícia Judiciária, onde entrou em 1985, com 36 anos de serviço contados à data da conversa. Passou pela equipa técnica de investigação digital, inserida na unidade de cibercrime, uma equipa de quatro pessoas. Aos 60 anos, prepara a fase final da carreira e acompanhou estagiários no curso de preparação inicial.

A realidade da investigação, longe das séries

Para Vítor Agostinho, a profissão tem glamour, mas menos do que as séries sugerem. Diz que muitos jovens se candidatam a cursos de ciências forenses influenciados pela ficção: em 20 minutos a personagem resolve o caso, enquanto um dos seus levou sete anos. Na realidade, as técnicas até são em grande parte as mesmas, aplicadas com método científico.

O que muda tudo não é a tecnologia, mas a dimensão das bases de dados. Uma pesquisa de impressão digital não encontra logo alguém que não esteja registado, e a lei limita a recolha e o tratamento desses dados, mesmo os do cartão de cidadão. Daí a frase de que não se consegue fazer omelete sem ovos.

Um dia que nunca se sabe como acaba

Na Polícia Judiciária, explica Vítor Agostinho, o dia raramente termina como estava previsto, entre serviços de prevenção, emergências e apoio a equipas técnicas como o laboratório de polícia científica, a balística, a recolha de vestígios de DNA ou a investigação digital. Em cenas de homicídio, os colegas trabalham equipados para não contaminar o local, e o trabalho arrasta-se horas.

No início da carreira, duas brigadas de dez pessoas estiveram cinco dias e quatro noites sem dormir atrás de uma rede colombiana na zona do Estoril e de Cascais, investigação que levou à apreensão de 80 quilos de cocaína. Noutro caso, na área económico-financeira, seguiram movimentos de animais entre propriedades no Alentejo. Para Vítor Agostinho, «cada caso é um caso», e a instituição não tem margem para rodar pessoas e mandar descansar quem está no terreno.

Ferramentas do dia a dia: Outlook, calendário partilhado e Excel

Quando o assunto são ferramentas, Vítor Agostinho não hesita: o calendário do Outlook e a partilha de calendários são essenciais, sobretudo para programar deslocações fora da área de Lisboa. Conta que já fez Lisboa–Porto três vezes no mesmo dia e que o Outlook é fundamental para preparar diligências, notificando as pessoas para se apresentarem perante a autoridade competente.

Do resto fala sem entrar em nomes: o Excel é fundamental e as restantes são ferramentas internas de cooperação internacional, desenhadas dentro da instituição para partilhar informação entre Estados-membros. Na mesa de trabalho há muitos dispositivos abertos, além da arma distribuída à entrada. Na área do cibercrime, um backup de telemóvel pode demorar de duas horas a vários dias.

Partilhar o calendário para não viajar em vão

Para Vítor Agostinho, os profissionais de investigação não são, na maioria, muito organizados, e a solução que desenvolveu passa por partilhar calendários com toda a equipa. A lógica é geográfica: se há uma deslocação para uma localidade, junta-se tudo o que existe naquela zona e procuram-se compatibilidades de horários. Como os recursos são poucos, aproveitar uma ida ao Porto para resolver vários assuntos passa a ser método.

Há ainda uma regra de trabalho: ninguém deve andar sozinho, por segurança e para que exista testemunho do que foi feito.

O preço pessoal de uma profissão absorvente

O maior arrependimento que Vítor Agostinho identifica na carreira não é técnico: foi não se ter candidatado a progressão quando as carreiras foram descongeladas, na altura em que tinha uma filha de 13 anos. Diz que tentaram convencê-lo, mas não quis arriscar. Refere ainda que entre inspectores e técnicos da carreira de investigação criminal há uma base de 95 por cento de divórcios.

O custo familiar aparece em histórias concretas: no primeiro ano de vida da filha estava quase sempre ausente e uma vez soube pelo rádio interno da Polícia Judiciária que ela estava no hospital. Relata umas férias em Portimão interrompidas para trabalhar, noite inteira, num homicídio em Vila do Bispo. Com estes horários, diz, ganhou dificuldades em dormir.

Fora do trabalho, fala de uma associação de história e património de que foi vice-presidente, com visitas a monumentos de influência portuguesa, incluindo três semanas na Índia e uma passagem por Cuba. Lê sempre que pode e trabalha bem com música de fundo.

A exposição mediática e o ruído em volta dos casos

Sobre os casos mediáticos, Vítor Agostinho é directo: na esmagadora maioria das vezes a exposição prejudica a investigação, porque as pessoas apagam provas quando percebem o que está a ser feito. Só uma parte mínima da informação divulgada é deliberada, como técnica para provocar reacções que interessam à investigação, e essa decisão é tomada com o departamento de comunicação. «Todo o resto é sempre ruído», afirma.

Acrescenta que a opinião pública se forma antes de o trabalho estar concluído e lembra que a Polícia Judiciária investiga para a verdade, tanto para condenar quem cometeu um ilícito como para ilibar quem foi alvo de denúncia caluniosa. Dá o exemplo dos incêndios: todos os anos a instituição pede à comunicação social que não mostre fogos a arder, por causa de pessoas com problemas psicológicos que gostam de os ver.

O que fica desta conversa

  • Calendarizar por zona geográfica: uma deslocação serve para vários assuntos da mesma área.
  • Partilhar o calendário com toda a equipa reduz deslocações repetidas e conflitos de horários.
  • Ferramentas simples, como o Outlook e o Excel, resolvem melhor o dia a dia do que sistemas complexos.
  • O trabalho em pares é regra de segurança, não desconfiança: garante testemunho e apoio.
  • A carreira cobra à família: Vítor Agostinho admite que não esteve presente como queria e que evitou arriscar na progressão.

Perguntas frequentes

O que faz um inspector da Polícia Judiciária no dia a dia?

Para Vítor Agostinho, o dia começa sem garantia de como acaba, entre serviços de prevenção, emergências, inquirições e apoio a equipas técnicas como o laboratório de polícia científica.

Que ferramentas usa Vítor Agostinho para organizar o trabalho?

Usa o calendário do Outlook e a partilha de calendários para programar deslocações fora de Lisboa, o Excel para o trabalho corrente e ferramentas internas de cooperação internacional, algumas desenhadas dentro da instituição.

Como é que uma equipa de investigação evita viagens repetidas?

Partilhando o calendário e agrupando tarefas por zona geográfica: quando alguém vai a uma localidade, reúne todos os assuntos daquela área e procura compatibilidade de horários, porque os recursos são poucos.

A divulgação mediática prejudica a investigação criminal?

Para Vítor Agostinho, na maior parte das vezes prejudica, porque leva pessoas a apagar provas antes de os passos da investigação estarem dados. Só uma pequena parte da informação divulgada é deliberada, como técnica de investigação.

Fontes

  • Podcast “EP09 – Produtividade na Investigação com Vítor Agostinho”, FULL FILL, Fevereiro de 2021 — no início deste artigo.
  • Imagem: cartão do episódio, FULL FILL.

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