Mário Brandão é fotógrafo, com o trabalho publicado em mariobrandao.pt, e é o convidado do quarto episódio do podcast Produtividade Consciente. A conversa vai dos seus dias de trabalho ao percurso até à profissão, às ferramentas de edição e ao que mudou, em três décadas, na fotografia.
Quem é Mário Brandão
Mário Brandão é fotógrafo e apresenta o seu trabalho em mariobrandao.pt. Nesta conversa conta que fotografa desde o final da década de 1970 e que está inscrito como profissional desde o início da década de 1990.
Um dia de trabalho sem planos rígidos
Para Mário Brandão, fazer muitos planos para os dias de um fotógrafo tornou-se frustrante: o trabalho é feito de pedidos de última hora e qualquer plano detalhado cai por terra. A solução que encontrou foi o oposto — programar muito pouco e deixar-se levar pelo fluxo.
O que valoriza é a margem de decisão sobre o próprio tempo. Quando não tem trabalho marcado com horas e pessoas à espera, é ele que decide quando pára: se está cansado, prefere tirar folga durante a semana e voltar depois, em vez de forçar horas ao ecrã.
Da aula de matemática ao curso técnico em Bruxelas
Mário Brandão conta que percebeu que gostava de fotografia no meio de uma aula de matemática, no 12.º ano, quando concluiu que não estava ali a fazer nada de útil. Mudou de área e olhou para as saídas existentes, das Belas Artes às escolas artísticas privadas, sem encontrar um curso que lhe parecesse o caminho certo.
A alternativa surgiu numas férias de Verão em Bruxelas, onde foi trabalhar: encontrou um curso técnico-profissional com aulas práticas no fim do dia e, em paralelo, trabalhou com contrato de estágio. Lembra que bateu a muitas portas antes de conseguir colocação — mais de oitenta, diz — e retira daí uma convicção: para si, o ensino técnico e profissional está desvalorizado em Portugal.
As ferramentas de quem fotografa
Começa pelo mais simples: qualquer máquina fotográfica serve, desde que se saiba trabalhar com ela. A seguir vem o computador com software de edição — o ficheiro que sai da máquina é, como diz, um registo de luz pensado para a segunda fase do trabalho.
Na secretária, além do portátil e dos cartões de memória, aponta duas peças essenciais: um monitor equilibrado, pensado para edição de imagem, e uma mesa gráfica com caneta, que usa há mais de vinte anos. Sobre o momento em que se sente mais realizado, é directo: «Sou mais feliz e mais realizado quando ilumino.»
O que mudou do analógico para o digital
Entre 1979 e 1989, Mário Brandão fotografou sobretudo a preto e branco, com laboratório no sótão da casa dos pais: revelava os filmes durante o dia e ampliava para papel depois do jantar, muitas vezes até às seis da manhã.
A diferença maior que aponta não está na qualidade, mas no tempo: no analógico sobrava-lhe tempo entre trabalhos para si e para estar com amigos num café durante a semana, e com o digital esse tempo desapareceu, porque o que resta do dia é gasto a editar e a produzir para as redes sociais.
Há ainda a questão do volume. O rolo tinha 36 fotografias, ou dez a doze num filme de médio formato, e isso impunha um limite; hoje é possível fotografar sem fim e o tempo acaba gasto a escolher entre centenas de imagens. A isso junta outra possibilidade técnica: fotografar em separado a luz natural e a artificial de um espaço e construir depois a imagem final, como num apartamento. Com hipóteses infinitas, conclui, é cada um que tem de definir os seus próprios limites.
Descanso, pausas e a fotografia como respiração
Mário Brandão não tem um horário que o obrigue a estar presente das nove às seis, nem espera pelo fim de semana para descansar — faz eventos precisamente ao fim de semana e diz que os seus dias são todos iguais: se há trabalho, é dia de trabalho. O descanso, explica, faz parte do ofício e pode ser um passeio com a máquina na mão. Sobre fotografar com o telemóvel, não vê heresia: considera-o um excelente bloco de notas de imagens.
O erro de carreira e um mercado diferente
O maior erro da sua carreira, admite, foi ter-se cansado da dinâmica de trabalho com empresas e ter apontado mais para o cliente particular; com os conhecimentos que tem, a fotografia comercial teria sido, na sua avaliação, mais bem aproveitada. Reconhece também uma tendência antiga: seguir o que aparece à mão em vez da própria vontade, por dificuldade em dizer não.
Nesta matéria recusa a ideia de concorrência. «Sou um livro aberto: ensino tudo a qualquer um que venha perguntar», afirma. O que mudou, explica, foi o estatuto da profissão: desde que as máquinas digitais ficaram acessíveis a qualquer bolsa, por volta de 2003 e 2004, deixou de se considerar mão de obra especializada. E o mercado encheu-se de profissionais — quando começou, os fotógrafos de referência no Porto contavam-se pelos dedos de uma mão.
Sobre a pandemia, descreve um calendário que se esvaziou em Março de 2020, com dois grandes laboratórios do norte a fechar.
O que fica desta conversa
- Planear sem rigidez: numa actividade de pedidos urgentes, o plano detalhado cai por terra.
- Definir limites, porque sem eles a possibilidade de fotografar sem fim vira horas de edição.
- Distinguir o tempo ganho do tempo perdido: as ferramentas digitais só poupam tempo com critério.
- Investir no que se controla, como a luz e o equipamento de edição.
- Tratar o descanso como parte do trabalho, e não como o que sobra.
- Decidir a partir da própria vontade, em vez de só agarrar as oportunidades que aparecem.
Perguntas frequentes
Como é que um fotógrafo organiza o dia de trabalho?
Para Mário Brandão, com pouca rigidez: como o trabalho é feito de pedidos urgentes, prefere programar o mínimo. Sem compromissos marcados com clientes, escolhe o seu ritmo e, se estiver cansado, tira folga durante a semana.
O que mudou na fotografia com a passagem do analógico para o digital?
Segundo Mário Brandão, sobretudo o tempo: no analógico sobrava tempo entre trabalhos, e é isso que se perdeu. O digital retirou o limite de exposições do rolo, o que multiplica as imagens a escolher.
Que ferramentas são essenciais para quem fotografa profissionalmente?
Para Mário Brandão, qualquer máquina serve desde que se domine, a par de um computador com software de edição, como o Lightroom e o Photoshop. Na secretária, aponta ainda um monitor equilibrado e uma mesa gráfica com caneta.
A fotografia continua a ser uma profissão valorizada?
Na leitura de Mário Brandão, deixou de ser mão de obra especializada quando as máquinas digitais se tornaram acessíveis, por volta de 2003. Ao mesmo tempo, o número de profissionais cresceu muito: no Porto de então, conta, os fotógrafos de referência eram cinco ou seis.
Fontes
- Podcast “EP04 – Fotografia e Produtividade com Mário Brandão”, FULL FILL, Dezembro de 2020 — no início deste artigo.
- Imagem: cartão do episódio, FULL FILL.
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