Bruno Seabra é médico dentista e CEO da Clínica Dentária do Marquês e é o convidado do 13.º episódio do podcast Produtividade Consciente. A conversa passa pela gestão do tempo numa profissão de horários apertados, pela fotografia como ferramenta de trabalho e pela forma como a organização de uma clínica determina a produtividade e o desgaste de quem lá trabalha.
Quem é Bruno Seabra
Bruno Seabra é médico dentista e CEO da Clínica Dentária do Marquês. Trabalha na área da reabilitação oral e da estética, tem cerca de 21 anos de profissão e é também fotógrafo profissional. Antes da clínica actual, passou cerca de vinte anos na Malo Clinic, de onde saiu para ter mais tempo para si.
Rigor com o tempo: um dia exigente
Para Bruno Seabra, o dia de um médico dentista é menos glamoroso do que se imagina: é trabalho hora a hora, com pacientes marcados em sequência. Diz ser muito exigente com o tempo e não gosta de deixar ninguém à espera, porque um atraso arrasta os seguintes. Uma consulta pode ocupar cerca de 25 minutos, mas há tratamentos de uma a quatro horas.
Critica o modelo de clínicas que comprimem as consultas a 20 minutos por paciente para rentabilizar o número de atendimentos. Refere o caso de um colega em Inglaterra que acordava de noite com o software de marcações a apitar. Para o convidado, esse ritmo é contra-natura: prejudica o tratamento, o paciente e o próprio profissional.
A fotografia como ferramenta de trabalho
Bruno Seabra explica que a fotografia clínica é transversal a toda a medicina dentária: serve para explicar ao paciente o que vai ser feito, comunicar com o laboratório e os colegas e registar casos. A comparação que usa é simples — o orçamento de um arquitecto não é uma lista de metros de fio e latas de tinta, mas é isso que o paciente recebe quando lhe é apresentado um orçamento cheio de referências que não entende. Com sistemas digitais, é possível desenhar sobre os dentes do paciente e mostrar como ficarão alinhados numa ortodontia, o que ajuda a motivar quem decide o tratamento.
O seu percurso começou com cursos dados a amigos que queriam aprender, passou por formação no Instituto Português de Fotografia e chegou a um estúdio próprio. Para o convidado, o digital tornou a aprendizagem mais rápida, porque deixou de haver o custo de errar num rolo. O telemóvel, diz, banalizou a fotografia: é prático, mas o sensor mais pequeno limita impressões grandes e fotografias com pouca luz — dá por isso cursos de fotografia com telemóvel a médicos dentistas.
Produtividade na clínica: equipa, materiais e processos
Para Bruno Seabra, a produtividade da clínica não se decide apenas no gabinete: depende da recepção, do laboratório, dos assistentes e da organização de tudo. Dá exemplos concretos. Uma assistente que conhece todos os processos evita que o médico saia do gabinete duas ou três vezes a meio de um tratamento, o que pode significar dez minutos perdidos por consulta. Um produto aplicado em duas gotas em vez de uma, quando a gota custa mais do que um vinho caro, é desperdício ao fim do ano. E uma cola de qualidade inferior pode encurtar a vida de uma restauração, obrigando a repetir tratamentos.
Fala também de melhorias simples, como organizar as caixas do laboratório por nome de paciente. Na tecnologia, menciona o microscópio e as lupas, para tratar apenas o que se consegue ver, e os sistemas CAD-CAM e as impressoras 3D, com laboratório na própria clínica, o que aumenta a previsibilidade dos tratamentos.
Desgaste físico, recuperação e outros projectos
O convidado não esconde o custo físico da profissão: são cerca de dez horas seguidas de trabalho, muitas vezes com luz concentrada numa boca pequena. Fala de dores nas costas, nos joelhos e nas articulações, de hérnias cervicais e lombares, de problemas de visão e de audição e de mãos ressequidas pelas luvas com pó.
A forma que encontrou para recuperar energia foi sair desse horizonte fechado: chega a casa e prepara cursos, edição de fotografias e apresentações. Foi por isso, diz, que saiu da Malo Clinic — para ter mais tempo para si, trabalhar menos como dentista e dedicar-se a pós-graduações em marketing e em gestão de saúde.
Cantar, aprender e segurança psicológica
Bruno Seabra conta que canta durante tratamentos, sobretudo quando o paciente está mais nervoso, como forma de transmitir calma e confiança. A fotografia, diz, deu-lhe também uma sensibilidade diferente: repara na sombra, na flor que nasce no meio do cimento.
Sobre leitura, lê sobretudo livros técnicos e artigos das pós-graduações, e quer ler um livro sobre segurança psicológica nas organizações — tema ligado ao seu interesse pela gestão. Para o convidado, as pessoas precisam de segurança para relatar o que corre mal; sem esse reporte não é possível evoluir. Neste momento, diz, o problema que tenta resolver é a gestão da clínica e o trabalho diário com equipas de personalidades e formações diferentes.
O que fica desta conversa
- Definir o tempo de cada consulta e evitar atrasos em cadeia é a base de uma agenda sustentável.
- A fotografia clínica serve para o paciente perceber o tratamento e para a equipa comunicar.
- Materiais e processos de qualidade evitam repetir tratamentos e poupam tempo.
- Preparar assistentes, materiais e stock evita saídas do gabinete a meio das consultas.
- Actividades fora da profissão ajudam a recuperar energia numa carreira desgastante.
- Dar segurança para relatar problemas é condição para melhorar processos.
Perguntas frequentes
Para que serve a fotografia na medicina dentária?
Segundo Bruno Seabra, serve para registar casos, comunicar com o laboratório e explicar ao paciente o que vai ser feito. Com sistemas digitais, é possível mostrar o resultado previsto e ajudar o paciente a decidir o tratamento.
Quantos minutos deve ter uma consulta de medicina dentária?
Na forma de trabalhar do convidado, uma consulta pode ocupar cerca de 25 minutos, havendo tratamentos de uma a quatro horas. Bruno Seabra critica o modelo de 20 minutos por paciente, usado para rentabilizar atendimentos, por prejudicar o tratamento e o profissional.
O que determina a produtividade de uma clínica dentária?
Para o convidado, depende da recepção, do laboratório e dos assistentes, não apenas do médico. Exemplos citados: uma assistente que conhece os processos, produtos aplicados na dose certa, colas de qualidade e caixas organizadas por nome de paciente.
Porque é que a medicina dentária não está no Serviço Nacional de Saúde?
Bruno Seabra aponta o investimento elevado que a medicina dentária de qualidade exige. Acrescenta que a lógica dos hospitais, com a produtividade medida por doentes atendidos por hora, não se coaduna com tratamentos que precisam de tempo.
Fontes
- Podcast “EP13 – Produtividade no Dentista com Bruno Seabra”, FULL FILL, Março de 2021 — no início deste artigo.
- Imagem: cartão do episódio, FULL FILL.
FULL FILL
A FULL FILL desenvolve soluções que contribuem para um melhor funcionamento e bem-estar da humanidade. Fale connosco.





